A "Folha Azul" no Caderno de Memórias, por Selma Monteiro (dinamizadora da Biblioteca Quincas de 5ª a 8ª séries).
Dedicado a Guida Nunes(*)

".... um povo que não preserva a sua identidade
e nem guarda a memória de seus mortos
não sabe de onde veio e nem sabe para onde vai..."
(Fragmento de Essa terra não é tua, poema de Sílvia Nobre Lopes, do povo Waiãpi)

O tema da XIX Feira de Literatura da Oga Mitá é "Uma Ode ao Rio de Janeiro". O objetivo é que todos possam voltar seu olhar para a cidade e, principalmente, expressar sentimentos e idéias que ela nos provoca. A literatura é um canal privilegiado para isso. Muitos poetas e escritores dedicaram versos, crônicas e contos sobre a cidade, falando de suas belezas e mazelas, cantando suas riquezas e lamentando a degradação a que esta, às vezes, é submetida, lembrando sempre que não há cidade sem os habitantes que nela inscrevem suas histórias. Mas não precisa ser escritor para isso. Nascida e criada nesta cidade, tomo a palavra para resgatar meu pedacinho do Rio...

Acordo com a sensação de que viajei num sonho bom. Não consigo me lembrar, a princípio, mas aos poucos vão se desencantando as cenas adormecidas. Em uma delas surge a Rua Catumbi (ou Rua do Catumbi, dependendo de qual das duas placas se leia). Reconheço-a, mas o tom é diferente. De alegres fantasias, crianças ou adultas, vestindo a via, uma quase multidão. É o carnaval de rua, em que o bairro fica tomado por blocos e ranchos que pedem passagem ao público e saúdam "a imprensa escrita, falada e televisada". E há os turistas de bochechas vermelhas, camisas coloridas, máquinas fotográficas a tiracolo e cheios de "oh!!! beautiful!!". Que sentimento de importância em sermos os donos desse lugar que eles visitam e se encantam! Como é divertido circular por esse "mundaréu" de pessoas diferentes pela calçada. Cena de um carnaval sem Sambódromo e sem Túnel Santa Bárbara... De bailes no Astória e no Minerva, hoje Helênico.

A multidão vai ficando lá em baixo, vista da sacada de um salão de cabeleireiros, no primeiro andar... E dali a cena muda para a área desse apartamento tipo casa, onde olhos da infância podem reconhecer os telhados do mundo até a torre da igreja... Gatos perseguindo rolinhas é a distração desse momento pendurado no muro entre dois tempos...

As cenas oníricas vão tomando forma de pensamentos, e me deixo levar pelos acontecimentos e pessoas que povoaram essa geografia afetiva do meu bairro. Infância de um só bairro, infância no Catumbi. Um vale rebordado de casas, cercado pelos morros e seus simples barracões com cobertura de zinco. Neles ainda era possível ouvir o "cantar alegre de um viveiro"... Hoje matraqueiam balas traçantes pelos telhados.

Em tupi, catumbi significa "a folha azul", expressão poética para um bairro hoje conhecido pelo Cemitério e pelo Morro da Mineira, e que parece haver se conformado com seu papel de passagem; aliás, está a meio caminho do Centro, das Zonas Norte e Sul.

Com os olhos já abertos, lembro que pude acompanhar a população enchendo as ruas de cartazes e as janelas com faixas de protesto, quando das desapropriações das casas para construção do elevado. Foi em 1966. A partir daí os moradores se organizaram para fazer frente à especulação imobiliária, e assim foi criada uma das primeiras associações de bairro do Rio de Janeiro, oficializada em 21/01/1970: a Associação de Assistência e Orientação dos Moradores do Catumbi. Este seria um capítulo à parte desta história, mas uma jornalista corajosa já colocou um pouco dela em livro, felizmente (*).

O salão do sonho pertencia a minha tia. Ficava na rua principal (Salão Catumbi) e nele trabalhava todo o lado feminino da família (mãe, tias, prima). O salão vivia cheio, mas o ponto alto era observar as clientes que o visitavam. Entre elas, havia as minhas preferidas. Sua presença era anunciada por um leve e sutil farfalhar de tecidos e aroma de talco. Eram as ciganas, donas de um gosto peculiar, em seus vestidos "sonantes" de tafetá resplandecente... O amarelo do ouro e as pedras coloridas vaidosamente cavalgavam colos, braços e orelhas! O cuidado com que se tratavam era algo fascinante, alimento para a imaginação menina! Fora isso, eram como todo mundo: compartilhávamos a padaria do seu Mota, a farmácia do Moisés, o armarinho do seu Maximino, o boteco do seu Lucas (hoje chamado Mulambo, que tem um bloco que aquece mais do que sai e um bonde na porta, sempre pronto para as "viagens" etílicas), as filas para comprar açúcar (nas épocas de carestia) na usina da rua dos Coqueiros, da qual resta apenas uma chaminé perfilada ao lado do viaduto...

Minha mãe sempre se relacionou de maneira mais próxima com as ciganas, pois era cabeleireira. Uma vez fomos convidados a participar de uma festa na Rua Carolina Reidner. Teria sido na Sociedade Na. Sra. das Graças (fundada em 1947 pelos ciganos e que contava com 250 associados)? Não tenho certeza. Só lembro que naquela noite custei a dormir um sono de músicas e cores.

Todas essas lembranças sempre me acompanharam, assim como a preocupação de que, com o tempo, amarelassem e se perdessem, como se perdeu a antiga geografia do bairro.

Por várias vezes pensei em resgatar essa vivência com os ciganos do Catumbi. Quem sabe fazendo uma pesquisa, com o objetivo de registrar a história das pessoas de origem cigana que viveram e vivem no bairro. A história da dona Nair, do Davi, dos que cumprimento mas não sei o nome, das festas familiares e dos momentos em que se comemoram uma data ou um acontecimento ligados apenas à cultura cigana. Descobrir por que famílias de origem cigana mudam-se muitas vezes de apartamento, dentro de um mesmo prédio, mas sem sair do bairro... Saber se as novas gerações conservam suas tradições... Até iniciei algumas buscas e descobri que os ciganos do Catumbi seriam de origem russa e teriam chegado ao Rio de Janeiro no início do século XX, quando participavam das rodas de samba na antiga Praça Onze.

Mas isso é pouco! Gostaria de preservar os fios muitas vezes desligados das histórias individuais e coletivas, de forma que estas não acabem soterradas sob as ruínas de um bairro esquecido em uma cidade atropelada pela modernidade... Entendo que isso poderia contribuir para que as novas gerações dessa coletividade e da comunidade do bairro viessem a entrar em contato com suas raízes e tradições. Entendo que todas as comunidades deveriam registrar sua memória.

Saudosismo? Dizem que isso acontece quando estamos ficando velhos, mas meu álibi é que esse interesse existe desde jovem. Acredito mais em uma iniciativa no sentido de preservar o que cada bairro, cada comunidade, cada cidade tem de mais precioso: as pessoas, sua cultura e suas histórias.

Selma Monteiro Correia (moradora do Catumbi há 47 anos)

Nota:

(*) NUNES, Guida. Catumbi, rebelião de um povo traído: um caso de especulação imobiliária. Petrópolis: Vozes, 1978. Quis homenagear essa jornalista comprometida com a transformação social e também moradora do bairro do Catumbi em sua infância. Conheci-a por ocasião da pesquisa para o livro referenciado, e seu trabalho incentivou meu gosto pela leitura e pesquisa. Infelizmente perdemos contato, mas acredito (e espero) que continue ativa.

O livro tem apresentação de Alberto Dines (Um jornalista e seu mundo), datada de 20/10/77. Pela atualidade das questões que essa apresentação levanta, reproduzo o trecho a seguir:

"O que leva um jornalista a romper o círculo de acomodação que tende a mantê-lo quieto? O que leva o ser humano, qualquer que seja a profissão ou função, a incomodar-se com o que está ocorrendo à sua volta? O que leva, enfim, a coletividade a rejeitar os apelos de sossego e jogar-se na inconfortável saga da busca da verdade?

O profissional de imprensa não é o único a prender-se aos ditados da consciência. Em qualquer atividade e em qualquer circunstância o cidadão é um ser em atividade....

Num momento em que os meios de comunicação são intencionalmente dirigidos para as amenidades e o supérfluo, quando o espírito da profissão é diluído por estruturas tecnocráticas, quando se estabelece um acordo geral para não produzir ameaças ao estado de coisas, é gratificante encontrar uma jovem talentosa e bonita disposta justamente ao contrário: incomodar-se e incomodar.

Uma sociedade muda e melhora na medida em que as pessoas mudam e melhoram. Guida, ao que tudo indica, não aceitou a imposição do sistema competitivo de ´subir e vencer na vida´. Preferiu ficar e crescer, ser repórter, não apenas como atividade mas como postura de vida.... Tocante, jovem é seu amor ao bairro, às casas, às pessoas, esquinas, cores e cheiros....

O Catumbi não é um bairro miserável mas é pequeno, desajeitado. O verdadeiro senso estético consiste em consertar e, não, destruir. No ato da demolição está contida uma dose de rancor e ódio. Na reconstrução, está pulsando amor.

O livro de Guida desvenda que nesta ânsia desvairada pelo ´progresso´ que tomou conta do Rio está embutido um grande desamor à cidade e ao homem. Os administradores desta metrópole emasculada estão possessos, querem chegar ao belo sem arrumar ou reformar o feio. Deslumbrados com as lantejoulas da vida urbana, nossos homens públicos esqueceram da própria vida..."


 

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