RUA TAL, QUADRA POR AÍ ASSIM, No. 100, ANDAR 1.000, APARTAMENTO MILHÃO, NÃO SEI ONDE


Onde foi que eu nasci, e há quanto tempo? Os moços da Urbanização nunca me perguntaram, ao derrubarem o Catumbi, o morro do Castelo, o morro de Santo Antonio, tantos morros aterrando tantos mares, o Rio é uma longa história de morros aterrando mares. Já me lembro - eu nasci no Meyer, antigo bairro do outro Rio, mas nada me doeu tanto como uma madrugada em que entrei no túnel Santa Barbara esperando sair naquele universo eterno do Catumbi e o Catumbi tinha literalmente desaparecido, destruído por uma guerra que não destruiu Colônia, nem Chartres, nem Praga, nem Nantes. A luta jurídica, pela desapropriação das casas do Catumbi, levou anos, mas luta jurídica não se vê nas ruas, não tapa o sol, não expulsa o cidadão de sua cidadania. Enquanto está nos foros. Mas quando a luta jurídica terminou - o Estado sempre ganha, o cidadão sempre perde, a justiça é cega mas tem muito tato - os moços botaram logo seus tratores na rua - a tecnologia de hoje compensa com sua rapidez todas as demoras burocráticas - e em meia hora destruíram o verdadeiro coração da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, transformando o Catumbi em mais um viaduto, como transformaram a maravilhosa Paulo de Frontin em mais um viaduto, mais um cemitério, mais uma faixa de asfalto, mais um nada clorótico, mais uma passagem, lugar para onde ninguém vai, de onde ninguém vem, onde ninguém jamais estará. Há quanto tempo começou isso, meu Deus? Há mais de trinta guerras, todas sangrentas, as últimas mais divertidas porque já nos acostumamos e tem o "Jornal das oito". Que nome tinha eu, então? Acho que nasci um João qualquer, numa tarde de agosto ou num dia de maio, que me importa agora? Já me esqueci mesmo. Os cheiros já mudaram - todos - de lugar e o Largo do Machado eu já nem sei mais onde foi, com o cinema São Luis também jogado nos espaços infinitos das deslembranças, a terra em volta calcinada e salgada para não se parecer com nada do que era antes, e "para que ali nada mais cresça". Eu conheço bem mais a escada que sobe da praça d'Espanha e vai dar lá em cima, em Trinita dei Monti, em Roma. Aqui, o tráfego foi todo remanejado, se é assim que se diz, e a todo momento se vai para onde não se quer, evitando-se as cidades pequenas e os seres humanos até lhes esquecer a forma e o contato. E sempre nos respondem, com arrogância: "Para que Sete Quedas, céus, seis não lhes bastam? E eu me pergunto, atônito: "Onde vive, onde mora essa canalha?" Certo não é aqui, ou não teria tal ânsia destrutiva. Há um espelho em que eu não me reconheço. E depois não querem violência. Como, se o homem brasileiro perdeu a identidade até do botequim da esquina.


Millôr Fernandes
Revista VEJA - 05.05.1982

 

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