História do Bairro

O Rio Catumbi era um rio nascido em Santa Teresa, em torno do qual nasceu o bairro de Catumbi, que era típico de ricos proprietários de terra e escravos. Nele foi instalado o primeiro cemitério brasileiro a céu aberto, destinado a não-indigentes, o Cemitério da Irmandade de São Francisco de Paula. Os bairros de Catumbi e do Rio Comprido estão ligados pela velha Estrada do Catumbi, hoje Rua Itapiru.

História do site       

        Quando meu amigo Chico ( Francisco de Assis Rodrigues Lima ) me falou da idéia de fazer um site sobre o bairro do Catumbi, pareceu-me que já de há muito tempo o estávamos preparando.

        Trabalhamos na mesma sala no Departamento de Informática do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Nós e mais uma boa meia dúzia de nossos colegas partilhamos da mesma obsessão dos verdadeiros cariocas pela sua cidade. Fotos antigas circulam assiduamente entre as caixas de e-mail e dicas sobre os melhores locais para se ouvir um bom samba ou recital de choro são trocadas, embora nós, atarefados, raramente possamos prestigia-los.

        Certa vez ouvi de um amigo bem jovem, folheando o belo livro de fotografias "O Rio Antigo de Marc Ferrez", expressar assim as suas convicções espirituais -"Como? Não há reencarnação? E a saudade que eu tenho disto tudo?".

        É desta forma que se sentem muitíssimos cariocas. Como se sua indignação pudesse vingar toda a pletora de barbaridades de que o Rio de Janeiro foi vítima. Como se alimentassem a vaga esperança de que um dia, que não verão, os cariocas do futuro virão reconstruir pedra por pedra aquele Éden, que não viram, e do qual foram todos expulsos pela miragem do progresso. Como se as cidades européias, ainda as mesmas, e ainda mais belas que há cem anos, tivessem renunciado à prosperidade.

        E este sentimento vem desde os dias em que o grande Lima Barreto protestou quase solitário e ridicularizado contra o desmonte do Morro do Castelo e a demolição do Convento da Ajuda. Passou pela saga memorialista do mineiro mais-que-carioca Pedro Nava que, médico que era, dissecou com minúcias de cirurgião o embuste do desapego ao nosso passado e à nossa tradição cultural. E chega finalmente às gerações mais jovens, onde o entusiasmo pelas coisas do Rio de Janeiro é, tenho observado, cada vez maior.

        Eu e Chico não apenas estamos irmanados por este carioquismo, como também acompanhamos uma parte desta história. Um pouco mais velhos que a maioria de nossos colegas (eu sou de 1960 e o Chico de 61), tivemos ainda a oportunidade de conhecer uma vasta região de nossa cidade que ficou grandemente à margem da história oficial e das fotografias, e de presenciar a sua criminosa demolição.

       Trata-se da extensa planície que, passando a região do Campo de Santana (Praça da República), inclui a antiga Praça Onze (esta, não conhecemos), a Cidade Nova, o Mangue, o Estácio e o Catumbi. Área de expansão da cidade no século XIX, abrigou uma população numerosa e heterogênea.

        Imigrantes europeus das mais variadas origens, escravos libertos vindos de todo o Brasil, muitos trazendo ainda consigo costumes ancestrais procedentes de inúmeras nações africanas.
Foi aí que a polca e o lundu deram-se os braços. Foi aí que as batucadas dos terreiros de candomblé foram entrecortadas pelo piano dos vizinhos onde soavam, tingidas com o sentimentalismo das modinhas, as valsas de Chopin.

        Ninguém reclamou..., ou reclamou, e muito. Mas algum tempo depois já não se ouvia um batuque cuja melodia não incluísse cromatismos ou modulações. E nem os pianos da classe média baixa deixavam de expressar a preferência de toda a gente pelos ritmos sincopados.

        Berço do choro, do maxixe, do samba, este Rio de Janeiro popular viu algumas de suas casinhas mais modestas ruírem nas inundações ou serem adaptadas para o comércio e seus imponentes casarões, que pertenceram a uma classe média de artesãos, comerciantes e funcionários do governo, transformarem-se em cortiços.

        Mais tarde, já pela década de 20 ou 30, uma parte desta região, o Mangue, veio tornar-se área de baixo meretrício, convertendo-se também em alvo predileto da fúria moralizadora de políticos do mais variado matiz.

        E chegou o dia em que estes demagogos, a cavaleiro de verbas generosas, recrutaram os sonhos megalômanos de arquitetos incapazes de compreender a alma de nossa cidade.

       E fez-se uma imensa cicatriz. O tecido urbano, coeso e variado, formado por dezenas de ruelas de paralelepípedos, que nos convidava às longas caminhadas, foi de súbito trocado por uma imensidão desértica, asfáltica, quase intransponível.

        Protestos? Muito poucos. Os humildes moradores bem que tentaram, mas de modo geral foram tratados com a mais completa indiferença. Os burocratas do patrimônio histórico, que poderiam ter feito alguma coisa, estavam mais preocupados com o destino dos palacetes afrancesados da Cinelândia. Ou com seus salários.

        Afora termos presenciado ambos este celerado urbicídio que incluiu grande parte do bairro do Catumbi, parcialmente poupado devido ao repúdio dos moradores, temos eu e Chico vivências e perspectivas diferentes acerca do bairro.

        Chico morou toda sua vida no Catumbi, eu, nunca, embora lembre bem de ter, desde criança, transitado ocasionalmente pelas suas ruas.

        Para Chico o bairro representava a vida cotidiana, rotineira, a amabilidade de sua gente, o convívio daqueles que se conheciam desde a infância e de outros que acabavam de se conhecer e logo passavam a participar desta vida comunitária.

        Para mim, era, acima de tudo, um lugar cheio de mistérios. Seus casarões altaneiros e decadentes, muitos quase em ruínas. Ali, eu não conhecia ninguém.

        Morador de Laranjeiras, quase na entrada sul do túnel Santa Bárbara, que dá acesso ao Catumbi, cresci num ambiente de classe média alta, onde meu estranho gosto pelas coisas do Brasil era desdenhado, ridicularizado, hostilizado mesmo. "Samba? Que horror!" E iam todos os meus colegas de turma no colégio ao show do Alice Cooper ou do Kiss, com a convicção de assistir a um evento de alta relevância. "Pixinguinha? Noel Rosa? Quem são?". E discutiam com ares de especialistas as roupas que usava Mick Jagger em seus shows ou a cor verdadeira dos cabelos de Rick Wakeman.

        Adolescente da Zona Sul, empreguei boa parte da liberdade de ir e vir então conquistada para conhecer o melhor possível aquele lado oculto e misterioso de nossa cidade que começava na boca do Santa Bárbara.

        O além-túnel era a quadra da Mangueira, onde conheci pessoalmente Cartola. Era o Maracanã, onde sofria pelo meu Botafogo. Era as tardes de choro aos domingos no Sovaco da Cobra na Penha. Era as ruas de Vila Isabel, de São Cristóvão, da Cidade Nova, do Andaraí, de Santo Cristo, do Morro do Livramento, que percorria curioso, buscando tudo aquilo que representasse a alma profunda de nossa cidade.

        E em lugar nenhum a percebia mais viva que no Catumbi, seu magnífico portal. Sair do túnel Santa Bárbara representava sempre um pouco de uma descoberta, como a devassar o Rio de Janeiro em suas qualidades mais íntimas. Do mesmo modo que ao sairmos do Rebouças em direção à Lagoa somos sempre surpreendidos pela cidade em sua beleza evidente, em sua externalidade.

        Hoje, não é mais o mesmo o Catumbi. Amputado e desarticulado pela nova malha viária que surgiu em função da construção do viaduto, e mutilado pela ação de pessoas que não dão o valor devido aos seus imóveis e fazem reformas monstruosas, ficou um pouco difícil dizer que ainda há no bairro uma atmosfera urbana peculiar.

        Daí dizermos que há um quê de prazer e um quê de desgosto no trabalho de andar a busca das coisas interessantes que ainda teimam de pé. Fustiga-nos, entretanto, a curiosidade. Ouvir histórias de velhos moradores. Descobrir fotos de locais insuspeitados e já inexistentes. Deparar-nos com um ângulo novo ou um pormenor arquitetônico ainda não observado.

        Coisas que certamente faremos bem melhor se pudermos esperar as opiniões, sugestões, comentários e informações de todos os que acessarem este site.

        Raul Antônio Félix de Sousa.

 

 

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