Residi de 1940 a 1942, no princípio da rua Itapiru, numa casa de vila hoje derrubada, em frente ao cemitério, que minha avó materna gostava de visitar.

Ela se encantava com a simplicidade do túmulo do duque e da duquesa de Caxias, então sepultados ali, antes da remoção de seus restos mortais para o panteão depois construído em frente ao palácio do Ministério da Guerra.

Vi de fato Pixinguinha vestido de pijama atravessando o largo, que na época era revestido de paralelepípedos, onde vinham ciscar pombos e até mesmo galinhas dos quintais das redondezas.


As chuvas de verão provocavam torrentes na rua Itapiru, que se despenhavam dos morros e arrastavam consigo pequenos animais: porcos, cabritos, gatos e cachorros e até mesmo sapos desafortunados.

Essas torrentes transformavam-se num remanso quando chegavam ao largo em frente ao portão do cemitério. Quando a chuva cessava e o sol inclemente voltava, formavam-se dunas de lama seca. Às vezes as repartiçoes competentes levavam dias para retirar esses detritos e, a cada passagem dos bondes, caminhões e outros veículos, levantava-se uma nuvem de poeira.


Catumbi era um bairro calmo, bucólico, a quinze ou vinte minutos de bonde da praça Tiradentes. Na época, já eram poucas as chácaras, mas o bairro ainda era conhecido pelo cognome de "a terrra do agrião".

De quando em quando, um circo se instalava na rua do Chichorro. As horas no bairro eram marcadas pelos sinos da igreja de Nossa Senhora da Salete e pelos apitos da refinaria do açúcar Brasil, que assinalavam o início dos trabalhos, a hora do almoço, a volta ao trabalho e o fim da jornada diária.

O bairro abrigava um gueto de ciganos, com costumes próprios e casamentos muito festivos. Dizia-se que vários ciganos eram oficiais de justiça. As mulheres usavam muito pó de arroz e vestidos em que predominavam os tecidos com brilho: cetim, lamê e tafetá.

No dia 8 de dezembro, celebrava-se a coroação da Virgem Maria, na capela de Nossa Senhora da Conceição, que ficava na esquina de Itapiru com o largo de Catumbi. Meninas vestidas de anjo coroavam Nossa Senhora e o adro da capela abrigava uma quermesse. No carnaval, formavam-se alguns blocos espontâneos de vizinhos. O cinema Catumbi, o único do bairro, ficava no lado esquerdo da rua Marquês de Sapucaí, no sentido de quem subia do Estácio para o Rio Comprido, na calçada oposta à fábrica de cerveja da Brama.


De volta a Pixinguinha, lembro que ele era padrinho da filha de um violonista, se não me engano do regional de Dante Santoro, da Rádio
Nacional, meu vizinho na vila já referida, situada em frente ao muro do cemitério.
A menina morreu de difteria, que o povo chamava de "crupe", por volta dos dois anos de idade. Lembro-me de ver Pixinguinha e a família da menina acompanhando a agonia da criança, e depois o velório do pequeno corpo.


É isso, meu amigo. Recordar é viver.

Um abraço fraterno, do Reynaldo e também da Maria José


 

Fiquei emocionado com o site que vocês colocaram "no ar".

Tenho 55 anos e nasci na Rua Barão de Ubá, na Praça da Bandeira, em 1948. Eu tinha tias que moravam no Catumbi, no Meier, no Rio Comprido e até no muito, muito longínquo Jacarepaguá.

Não sei se deveria ser assim, mas ainda hoje me toca a devastação sofrida por bairros tão bonitos e importantes da nossa cidade, quase sempre para que os carros passem mais rapidamente, até que (já que proliferam idefinidamente), voltem a andar devagar.


Toda vez que eu passo em algum desses lugares que me remetem à infância me vem aquele sentimento dúbio de nostalgia e alegria ao mesmo tempo quando, mesmo com toda a nossa burrice continuada, ainda é possível identificar casas, ruas, postes, portas, modos, jeitos e às vezes até pessoas, tão familiares, com a dignidade que têm os sobreviventes.

Eu senti isso navegando no site, e agradeço a vocês, porque gosto de sentir assim.

Como é estranha e ao mesmo tempo tão adequada essa expressão "no ar" para o que vocês fizeram.
Parabéns por colocarem "no ar" algo que em algum lugar do passado talvez tenha ido "pelos ares".

Grande abraço,

Eloi


O meu nome e Monica Kehren.

Eu nasci e fui criada no Grajau, Rio de Janeiro. Estou atualmente morando nos Estados Unidos.
O meu marido e eu estamos fazendo uma pesquisa para a Tese de Doutorado dele sobre os bairros do Rio de Janeiro, nos anos seguintes a extincao da Guanabara.

Nós já visitamos o Catumbi varias vezes e ate tivemos uma reuniao com a Dona Paula alem de algumas pessoas da Associacao dos Moradores.

A Dona Paula nos ajudou com algumas fontes primarias (artigos de jornais da epoca)sobre a construção do Tunel Santa Barbara e a mundaça que causou nas vidas dos moradores.

Nos gostariamos de saber como poderemos adquirir o novo livro sobre o Catumbi. Nos poderiamos pagar com cartao de credito.

A minha família mora no Rio; eu posso enviar alguem para buscar o livro com voces, sem problemas. O meu marido gostaria de saber tambem se tem alguem que gostaria de participar da tese de dele de
doutorado e responder algumas perguntas sobre o bairro. Agradeco pela atencao dispensada. Tenham uma boa tarde.

Monica Kehren


ADOREI, FOI UM RETORNO AS MINHAS ORIGENS EU NASCI NO CATUMBI TENHO ÓTIMAS
RECORDAÇÕES DA MINHA INFANCIA(ARMAZEM DO SEU FERREIRA,BANANEIRO,ARMARINHO DO SEU ARI, AÇOUGUE DO SEU LUIZ, AVIÁRIO, PADARIA, OS DOCES DO SEU MIGUEL, FARMACIA DO
BARBOSA, MARCELINO, FÁBRICA DE AÇUCAR, ARMAZEM DO SEU PLINIO, A CASA DE LOUSTRES, LAVANDERIA...

CLAUDIA COSTA


Caros Amigos, Sou filho desse bairro que muito amo, nasci e me criei ali, tive uma bela e feliz infância. Tenho hoje 41 anos, e, infelizmente, não moro mais no bairro, porém tenho o prazer de sempre voltar para visitar meus pais na Rua do Chichorro. Lembo-me dos carnavais, do grupo Zapata, conheci ciganos e aprendi algumas palavras do seu dialeto, e foi com muita emoção e curiosidade que vi todas
as páginas, fotos e textos deste site. Meus bisavós por parte de mãe,eram italianos e foram morar no bairro no final do séc.XIX, e alí criaram sua família. Hoje vejo com certa amargura as transformações do nosso bairro, o crescimento das favelas e aumento da violência, mas o "Catumby" estará sempre nas minhas recordações e sonhos.
Obrigado pela alegria.

Paulo Mello


Conheci através de pesquisa na Internet sobre o bairro, pois como relatei fui moradora, nascí lá e mudei-me aos 7 anos, minhas melhores lembranças de infância são de lá, por isso meu interesse já que perdí contato com ás pessoas e o local onde morava foi demolido.

Sucesso para o trabalho de vocês!!

Leila Ramos



 


 

 

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