Catumby com Y

        Catumbi é uma das inúmeras palavras indígenas que foram, até a reforma ortográfica de 1943, grafadas com a letra Y. A utilização desta letra, longe de ser um mero capricho, traduz o zelo dos padres jesuítas ao sistematizar e padronizar, com vistas à catequese dos gentios, os vários dialetos indígenas aparentados entre si, outrora falados no litoral do Brasil, e coletivamente denominados Tupi-Guarani.
Ao elaborar as normas desta chamada Língua Geral, ou Nheengatú, procuraram seguir, quando possível, os princípios fonéticos utilizados para a grafia da língua portuguesa. Depararam-se, entretanto, com a necessidade de representar um fonema desconhecido em nosso idioma, correspondente ao u francês ou ao ü alemão.

        Na Antigüidade, a letra Y fora importada do grego pelo latim precisamente para representar este fonema, que os romanos desconheciam, nas palavras de origem grega. Isto sugeriu aos eruditos religiosos a sua utilização. Coisa muito diversa do que ocorre hoje em dia, quando se institui para os idiomas ágrafos de nossos povos nativos normas ortográficas alheias aos princípios fonéticos de nossa língua, cheias de ks e dos ambíguos ws, para os quais temos formas precisas de representação.

        O interessante é que a nova proposta de reforma ortográfica, aprovada por Brasil e Portugal mas felizmente rechaçada pelos demais países de língua portuguesa, abriga estas ortografias esdrúxulas (e também para as línguas nativas da África e da Ásia) e as consagra na transliteração (geralmente à inglesa) de topônimos de idiomas que sequer se escrevem com letras latinas, como o árabe e o japonês, sem entretanto restaurar o utilíssimo Y da Língua Geral na toponímia brasílica.


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